Quando o sonho de janeiro vira frustração em fevereiro

Publicado em 10.02.2026 às 13:01

Fevereiro mal começou e, para muita gente, o entusiasmo típico do início do ano já deu lugar à frustração. As tradicionais metas de Ano Novo — emagrecer, mudar de carreira, economizar dinheiro, ter uma rotina mais saudável — começam a parecer distantes. E isso é mais normal do que parece: dados da Baylor College of Medicine indicam que 88% das pessoas abandonam seus objetivos ainda nos primeiros dois meses do ano. Um levantamento do Instituto Real Time Big Data, realizado em 2023 mostrou que 79% dos brasileiros não cumpriram as metas estabelecidas e relataram sentimento de fracasso em suas metas ao fazer a avaliação no final do ano.
Apesar do peso emocional envolvido, especialistas alertam: desistir das metas não é sinal de fraqueza ou falta de força de vontade. É, na verdade, uma resposta previsível do funcionamento do cérebro.
Segundo a psicóloga Caroline Dias, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Neuropsicologia, aquilo que deveria representar um recomeço positivo pode se transformar em um gatilho de ansiedade, culpa e autocrítica. “A maioria das pessoas não falham em suas metas porque são fracas. Falham porque não entendem como o cérebro realmente funciona”, explica.
A tendência de criar metas em datas simbólicas, como o Ano Novo, está ligada ao chamado Efeito Fresh Start (ou efeito do novo começo). A ideia de que janeiro é um mês “especial” gera a expectativa de que tudo será diferente apenas porque o calendário mudou. No entanto, a realidade é menos otimista: os desafios, hábitos e limitações continuam os mesmos do ano anterior.
Quando essa expectativa não se confirma, a frustração aparece rapidamente. Outro fator determinante está no tipo de meta estabelecida. Objetivos vagos, como “vou emagrecer” ou “vou ser mais produtivo”, não oferecem ao cérebro informações suficientes para o planejamento. Metas claras e específicas — por exemplo, “perder 5 quilos em três meses” — ativam o córtex pré-frontal, área responsável pela tomada de decisão e organização de ações.
Quando a meta vira fonte de culpa
Expectativas irreais também geram dissonância cognitiva, um conflito entre o que a pessoa promete a si mesma e o que consegue executar na prática. Esse conflito pode desencadear sentimento de culpa, vergonha e até sintomas depressivos.
Do ponto de vista neurobiológico, o impacto é significativo. Quando uma meta realista é alcançada, o cérebro libera dopamina, neurotransmissor associado à sensação de recompensa e motivação. Já o fracasso recorrente em metas impossíveis impede essa liberação, levando à desmotivação. Com o tempo, o cérebro aprende a associar tentativas a fracasso — um processo conhecido como aprendizagem de fracasso, que contribui para a construção de uma autoimagem negativa e da crença de incapacidade.
O impacto psicológico é progressivo, explica Caroline Dias. “Começa com culpa e vergonha, evolui para ansiedade e desmotivação. Quando esse padrão se repete ano após ano, pode levar à chamada indefensão aprendida, além de aumentar o risco de transtornos de ansiedade e de humor”, completa a especialista.
Pressão maior sobre as mulheres
O cenário tende a ser ainda mais desafiador para as mulheres, que enfrentam maior pressão social por auto otimização e pelo cumprimento simultâneo de múltiplos papéis — profissional, familiar, estético e emocional. Para esse grupo, compreender a neurobiologia das metas é um passo essencial para romper ciclos de frustração.
Como fazer metas que realmente funcionam
Segundo Caroline Dias, a boa notícia é que a ciência oferece caminhos mais eficazes. Estudos indicam que metas têm mais chance de sucesso quando seguem cinco princípios fundamentais: clareza, desafio realista, comprometimento genuíno, feedback regular e complexidade gerenciável.
“Em vez de longas listas irreais em janeiro, a recomendação é escolher duas ou três áreas da vida, definir metas específicas e possíveis, começar pequeno, acompanhar o progresso e celebrar cada avanço — não apenas o resultado final”.
Ainda estamos no início do ano. Para quem já se sente frustrado ou perto de desistir, este pode ser o momento ideal para recalibrar expectativas e recomeçar de forma diferente: desta vez, com apoio da ciência — e não da culpa.