• Sobrecarga e cobrança social colocam mulheres no limite e amplia busca por ajuda psicológica

    Publicado em 18.03.2026 às 13:03

    A pressão para equilibrar carreira, cuidados com a casa, filhos e relações familiares têm levado cada vez mais mulheres ao limite emocional. Especialistas alertam que a soma de múltiplas responsabilidades, aliada à cobrança social para que elas “deem conta de tudo”, tem contribuído para o crescimento de quadros de ansiedade, depressão e esgotamento psicológico — um cenário que muitas vezes só é percebido quando o sofrimento já atinge níveis extremos.

    Embora não seja possível afirmar que as mulheres adoecem mais que os homens, especialistas observam que elas são as que mais procuram atendimento psicológico e psiquiátrico. Um indicativo de que a pressão social, pessoal e profissional tem impacto direto na saúde mental feminina.

    Segundo a psicóloga da Hapvida, Karina Siqueira, esse fenômeno reflete uma cobrança social histórica sobre o papel da mulher. “Não se pode dizer que as mulheres são as que mais adoecem, mas é fato que são as que mais procuram ajuda psicológica e psiquiátrica. Há um crescente adoecimento mental provocado por pressão social, pessoal e profissional, mas isso ainda é uma sobrecarga invisível”, afirma.

    O peso das expectativas
    O peso das expectativas é um dos principais fatores que levam à exaustão. De acordo com Karina, além da carga de trabalho formal, existe a chamada carga mental doméstica, que inclui planejamento da rotina da casa, cuidado com os filhos e atenção constante às necessidades da família, tarefas que, culturalmente, ainda recaem majoritariamente sobre as mulheres.

    Essa expectativa de desempenho constante cria um modelo quase inalcançável de comportamento feminino. “Culturalmente, as mulheres são colocadas no lugar de quem precisa dar conta de tudo: ser boa mãe, boa esposa, boa profissional e ainda cuidar da casa. Existe uma expectativa de que ela esteja sempre forte e disponível para cuidar de todos”, afirma Karina Siqueira.

    Quando pedir ajuda parece falhar
    Esse padrão social também influencia na forma como muitas mulheres lidam com o próprio sofrimento emocional. A ideia de que é preciso ser forte o tempo todo pode dificultar o reconhecimento da necessidade de ajuda. “O que torna o tratamento mais difícil é que muitas mulheres crescem com a sensação de que não têm o direito de falhar, de ser frágeis ou de adoecer”, destaca a psicóloga.

    No consultório, um dos principais desafios dos profissionais é ajudar pacientes a romper com essas expectativas. “Nosso trabalho é mostrar que elas não precisam dar conta de tudo. É possível dizer não, deixar algo para depois e reconhecer os próprios limites”, explica.

    Outro fator que preocupa especialistas é o momento em que muitas mulheres procuram atendimento psicológico. Na maioria dos casos, a ajuda profissional só é buscada quando os sintomas já estão em estágio avançado. “Infelizmente, muitas mulheres passam por momentos extremos de exaustão, ansiedade ou depressão antes de procurar ajuda profissional”, alerta Karina Siqueira.

    Para a especialista, ampliar o debate sobre saúde mental feminina é fundamental para romper estigmas e incentivar o autocuidado, além de promover uma reflexão social sobre a sobrecarga histórica atribuída às mulheres.