• Falta de apoio psicológico agrava a sobrecarga de mulheres que criam filhos com autismo

    Publicado em 14.04.2026 às 13:01

    Enquanto crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) avançam no acesso a terapias e acompanhamento especializado, uma realidade paralela permanece invisível: a das mães que sustentam essa rotina intensa e, muitas vezes, adoecem sem qualquer suporte psicológico.
    Aos 41 anos, Fernanda Cristina da Silva vive essa contradição diariamente. Mãe de uma adolescente de 14 anos com autismo grau 3, ela reconhece a própria necessidade de cuidado, mas não consegue colocá-lo em prática. “Eu sei que preciso de terapia. Todo mundo fala. Mas eu sempre priorizo ela”, afirma.
    A rotina é exaustiva e não permite pausas. Sem rede de apoio, Fernanda concentra todas as responsabilidades: cuidados com a filha, tarefas domésticas e a atenção aos outros dois filhos. “Sou eu pra tudo: levar, buscar, médico, casa… não tem descanso”, relata. O pouco tempo disponível não é destinado ao autocuidado. “Quando eles estão na escola, é o tempo que eu tenho pra resolver problema. Não é pra mim.”
    Esse cenário, segundo especialistas, vai muito além do desgaste emocional. “Não estamos falando apenas de cansaço, mas de uma resposta fisiológica ao estresse crônico”, explica a psicóloga Caroline Dias, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e neuropsicologia. “Esse nível de sobrecarga pode provocar alterações hormonais, inflamações e aumentar o risco de doenças físicas e transtornos mentais.”
    Sob a perspectiva da neurociência, esse processo é ainda mais profundo. O desgaste cumulativo no corpo e no cérebro leva a uma exposição contínua ao estresse, capaz de provocar elevação do cortisol, inflamação sistêmica e alterações na própria capacidade de adaptação do cérebro ao longo do tempo. “Esse insulto indica que as mães apresentam, um nível de cortisol cientificamente alto, diante da exposição prolongada ao estresse, o eixo de comando (HPA) entra em um estado de exaustão, levando ao embotamento da produção de cortisol. Ou seja, o corpo perde a capacidade de responder fisiologicamente aos desafios diários, resultando em um perfil biológico de estresse crônico semelhante ao observado em soldados em combate”, afirma Caroline Dias.
    Os dados confirmam a gravidade da situação. Um estudo publicado em 2022 pela University of California, San Francisco (UCSF), que acompanhou mães ao longo de 18 meses, apontou que cerca de 50% das mães de crianças com autismo apresentam sintomas depressivos elevados — um índice significativamente superior ao observado entre mães de crianças sem o transtorno.
    Apesar disso, o cuidado com a saúde mental dessas mulheres raramente é incluído como parte estruturante do tratamento.
    Na prática, o impacto já é perceptível no cotidiano. Fernanda relata sinais claros de esgotamento. “Tem dia que eu vou ao mercado comprar duas coisas e volto sem nenhuma. Eu tô tão cansada que esqueço. Eu rio pra não chorar.”
    Para Caroline Dias, esse tipo de relato é um alerta. “A sobrecarga emocional contínua, sem acompanhamento, pode evoluir para quadros mais graves, como ansiedade, depressão e até esgotamento extremo”, afirma.
    Ainda assim, muitas mães permanecem presas a um ciclo silencioso: reconhecem que precisam de ajuda, mas não conseguem acessá-la. “Pra eu fazer terapia, teria que encaixar no horário da terapia dela. E nem sempre dá”, explica Fernanda.
    A lógica é recorrente: o cuidado com o filho sempre vem primeiro, enquanto a saúde mental da mãe é constantemente adiada. “A gente acha que a criança precisa mais. E precisa mesmo. Mas, se eu não estiver bem, nada funciona direito”, admite.
    Sem suporte psicológico e com poucas políticas públicas voltadas a esse grupo, muitas mães encontram alternativas informais para lidar com a sobrecarga — seja no apoio indireto de profissionais que atendem os filhos, seja na fé, que, segundo Fernanda, “é o que sustenta”.
    Especialistas defendem que o modelo de atendimento ao TEA precisa ser revisto com urgência, incluindo as mães como parte central do cuidado. “Oferecer suporte psicológico para essas mulheres não é um complemento, é essencial para a saúde de toda a família”, reforça Caroline Dias.
    Enquanto isso, a realidade segue marcada por um paradoxo: em meio aos avanços no tratamento do autismo, quem garante que tudo funcione continua, em grande parte, sem cuidado algum.
    E a pergunta permanece sem resposta concreta: quem está cuidando da saúde mental dessas mães?